Iniciamos o terceiro encontro de atividades assistindo aos Minuto Lumière realizados por cada grupo44: uma mulher fala diante de uma porta, sem ouvirmos o que diz ou entendermos o que aguarda. Dois pedreiros são vistos pelos vãos de um muro, diante da construção da obra que põem de pé; um terceiro operário, transportando uma carriola, atravessa as placas de concreto que funcionam como anteparos visuais. Num outro plano, formigas gigantes invadem o quadro carregando gravetos dezenas de vezes superiores ao seu tamanho, com superpoderes que dão inveja aos maiores atletas olímpicos. A copa de uma árvore balança progressivamente de um lado a outro. Durante a exibição, alguém comenta que a esquina da rua vista dali parece outra. Elisabete, uma professora de cinquenta e poucos anos, diz que durante a feitura de seu exercício olhou pela primeira vez o céu assim, de baixo, como se recortado por uns pedaços de parede, e gostou. As meninas correm em círculos no ginásio, alternando a velocidade, aproximando-se, desaparecendo, e retornando pequeninas, na profundidade de campo. A simultaneidade de ações chama a atenção no plano em que três garotos jogam bola. Uma mulher, certamente mãe, se inquieta quando o carro se aproxima do menor deles, afetada pela força dos corpos presentificados no quadro. A bola vai para o fora-de-quadro e retorna, enquanto pedestres atrapalham o jogo improvisado, sem que nenhum acidente aconteça.

 

Cada um dos pouco mais de 24 minutos de material realizado aos arredores da escola inscrevem uma nova paisagem do bairro. Miraflores, agora criada pelo cinema, surge como um território reelaborado por planos silenciosos, fixos, que estabelecem uma nova experiência na relação com o bairro mesmo, que agora já é outro. Ora por estar perto demais, ora por estar muito longe, muito rápido ou muito lento, por vê-lo sem o som que cega, por olhar pela fresta que ali antes era buraco e não mundo, as imagens, surpreendentemente, às pessoas presentes, nos fazem todos falar. Elas mesmas não dizem nada. Mostram um caminho, dois cavalos. Mostram insetos, plantas, metais. No seu silêncio, as imagens nos permitem falar até sobre o som cheio do mundo, o excesso de grave do trânsito, esse volume de buzina que nos transtorna em qualquer parte – ainda que não escutemos uma só vibração emanada pelos planos silenciosos.

 

Desprovidos de sua ordem explicadora, para além de toda a autoridade, os Minutos Lumière filmados reposicionam nosso olhar demandando-nos de forma não coercitiva. Poderíamos indagar-nos igualmente que tais imagens, agora, são excessivamente lacunares, tomadas por um formalismo abusivo, desprovidas de qualquer coeficiente político. Retiradas de seus invólucros à vácuo, as imagens tornam-se mesmo muito frágeis, fugidias, é verdade. Por outro lado, passam a sofrer a influência da gravidade, a densidade do ar, contagiadas pelo mundo, pelos olhares devolvidos a elas que nos olham e, assim, nos engajam. Para tanto, nosso exercício precisava de uma devolução: subir os seis andares de escadas, vê-las todas, uma a uma, lentamente. É preciso que as vejamos umas juntas às outras, pois emparelhadas elas expandem nossas possibilidades de conexão entre elas e o real, aumentam em intensidade a força das nossas articulações, nos interpelam como espectadores postos a trabalhar. Enquanto a primeira série de fotografias nos assujeitava por sua forma concêntrica, os novos Minuto Lumière, cujos signos são mais dispersos e porosos, em seus termos, não nos pedem nada e, por outra parte, nos fazem ver e falar sem o imperativo da discursividade que regia os registros precedentes.Sua natureza, ao circunscrever o ato de criação no interior de um regime de falsa “observação”, atua na configuração de certo tipo de recuo da esfera personalista e individual que intuía dos pés à cabeça as fotografias da primeira série. O dispositivo enfatiza a dimensão essencialmente visual do cinema, tal qual Germaine Dulac a reivindicava. Seguindo as regras de Vitor Kossakovsky, os Minuto Lumière passam a nos mostrar Miraflores, com o cinema. Ou, ainda, no jargão de Deligny, Miraflores camerada.

 

[e]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[chiado]

 

[vozes]

[ruído de vento no microfone]

[ruídos]

[Despacito]

[latidos]

[serra elétrica]

[vento na copa de árvore rasteira]

 [buzinas]

[buzinas]

[vento na copa de árvore alta] [vento da janela]

[...]

[barulhos indiscerníveis]

 

[grupo de pessoas conversando]

[passos rápidos] [passos de corrida]

[e]

 

 

 

 

 

 

 

 

Aos poucos, sobre as cartolinas, foram sendo traçadas palavras e desenhos, compondo mosaicos que, posteriormente, passados aos computadores, entre muitas mãos e perguntas, entre dedos ágeis, curiosos, e outros mais lentos, entre formigas e canções. Foi assim que criamos três documentários experimentais com os quais parecia possível percorrer outra história das imagens e do cinema. Foi assim que deixamos as mensagens e sua rede de significados e passamos às imagens maquinando novas formas de fazer ver e ouvir.

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