Um dos ápices do funcionamento do modelo sociológico é Maioria Absoluta (1964), de Leon Hirszman. Diríamos que o curta de Hirszman tem como tema o analfabetismo239. Ou, mais precisamente, toma o analfabetismo como uma relação de expropriação simbólico-material cujo corte transversal é, a um só tempo, na despossessão de meios de subsistência e na linguagem mesma. Para armar esse problema, o documentário está baseado na criação de uma rede que envolve as três posições: outro, espectador e ele próprio, o cineasta. No que diz respeito à figuração do povo, Maioria Absoluta fornece uma imagem, encarnada pelos indivíduos retratados, em sua maioria trabalhadores, que tem como intuito construir um imaginário que os associa aos verdadeiros brasileiros, atuando de forma metonímica. Quanto aos espectadores, a quem o filme se endereça, espera-se que estejam sensibilizados pela causa (a fome e as condições miseráveis em que vivem os sujeitos representados), nutridos pela culpa (alimentada pela exposição da crueldade do mundo em que vivemos) e engajados, historicamente (por meio da verdade trazida à baila pelo filme). Por fim, há também o lugar do realizador, aquele que detém o saber não apenas sobre si mesmo, algo que os trabalhadores e os espectadores parecem desconhecer, simultaneamente; como também sobre a macropolítica social, que envolve todos os sujeitos abarcados pelo documentário. Vejamos como essa estrutura corresponde ao modelo sociológico, forjando toda uma lógica ultra-hierarquizante que cristaliza as dinâmicas entre ver, saber e poder, no âmbito da epistemologia moderna.

 

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