O extenso travelling em câmera lenta, desde a saída de um supermercado, trafega por uma avenida de Contagem, Minas Gerais. Realizado de dentro de um carro, o plano é embalado pela batida do rapper Shalon Israel, que entoa a música “Cabeça de Gelo”. Cada corte nos faz enxergar novas pairagens, mantendo o mesmo o ponto de ver e a angulação de alguém que, do banco do passageiro, assiste ao mundo do lado de fora fluir. Há certa equivalência entre estar num carro, enquadrando a cadência desordenada dos diferentes tempos que escorrem pela janela, e certo tipo de pensar-agir cinema. Da parte interna do veículo, descortina-se o mundo no exterior como puro bloco de sensação: sem cadeias de sentidos, despossuído de linhas causais. Vidraça por onde emergem figuras desprovidas de estruturas de significação. Vêm os corpos arrastando o tempo e com eles o filme.

 

É assim que, em seu princípio, Nada (2017), do mineiro Gabriel Martins, impõe uma questão de intensidade. Antes de tudo, trata-se disso: um modo de afetação que qualifica ao corpo uma cadência. Corpo que interage com a profusão de sensações do real criando com ela as formas de experimentar o tempo da existência. No rap swingado, explode o “fogo na Babilônia!”. Nossa mirada, ao contrário, é vagarosa, arrasta-se desde o homem no posto Shell lavando o carro ou quando as três bicicletas azuis rasgam o plano-janela-do-passageiro, diagonalmente, de uma ponta à outra. A letra embala: “Eu não vim para me curvar, eu vim para conquistar”. Moto-táxis, manequins, dois senhores ensacando uma garrafa de suco de laranja. O cinema nos devolve uma viagem muito lenta, embora não se trate de engarrafamento, dos carros estacionados e atravancados à espera do sinal ou da resolução de um acidente. A câmera- carro é desobstruída em seu flagrar. É todo o planeta que agora passa a girar morosamente, imprimindo uma outra dinâmica à comunidade de olhares que ocupam a cena. Não se curvar: antes de ser uma disposição ativa à contestação das ordens e poderes, é mesmo uma questão que se impõe ao corpo. Relações de força. Bia, a protagonista de Nada, interpretada pela jovem (e enérgica) Mc Clara Lima, sabe disso. Bia sabe que não fazer nada sinal é insuportável para o mundo que há. E que seu corpo, enquanto um campo de forças, age e sofre esse mundo, invariavelmente.

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