Colégio Crispiniano dá um importante nó na questão, levando a problemática do ponto de vista para um espaço de radical complexidade. Após nos introduzir à escola, com poucos planos que “contextualizam” a ocupação, sem muito se preocupar com ser didático ou ilustrativo, o curta-metragem nos mostra um grupo de estudantes, todos homens, skatistas, apoiando-se nos degraus de um dos corredores do colégio para treinar saltos. A câmera, em contra-plongée, assiste aos rapazes performarem seus pulos, um a um, como as imagens dos canais esportivos dedicados à visualizar as artimanhas dos esportistas, posicionando-se de modo a enfatizar os movimentos, dando a ver os corpos em seus pontos ótimos executando manobras e truques dos mais diversos, no sofisticado jogo que envolve rolimãs, tábuas, impulso e queda. Pouco depois, já à altura dos olhos dos demais jovens, a câmera interage com o grupo, aproximando-se, enquanto eles jogam “dedos” – jogo que se consiste na somatória dos lances individuais de números por cada jogador, utilizando os próprios dedos, numa roda de mãos. Um dos meninos pergunta algo que mal entendemos à câmera, explicitando a interação entre o grupo de quatro estudantes e o operador da câmera. “É pra começar assim mesmo?”. O operador diz confirma, autorizando o lançamento dos dedos e contagem que selecionará o “vencedor”. Então, algo acontece.

No plano seguinte a câmera-corpo composiciona-se entre os skatistas iniciando uma corrida de “pega-pega” pelos corredores escolares. Cortes irregulares reintroduzem a brincadeira num caminho labiríntico. Nos perdemos por entre as dobras escuras dos corredores, em alta velocidade. Um dos operadores da câmera diz: “Não vai muito rápido, não!”. Ele vira a câmera para o seu próprio rosto e grita: “É nóis!”. O corpo-câmera atravessa regiões de intensa penumbra, onde não é possível ver mais nada, retornando aos espaços iluminados e amplos dos corredores que se parecem sempre os mesmos, como se estivéssemos penetrando infinitamente por uma única linha reta que, a cada nova passagem, muda completamente, já sendo outra. Sem cerimônias, o movimento é recortado para dar lugar à passagem da câmera do antigo operador para o próximo. “Tá filmando?”, o novo rapaz pergunta, enquanto o colega que antes filmava agora pega rapidamente seu skate para ocupar outra posição, dando início a um novo turno da corrida, sem pestanejar. Um novo corpo-câmera imprime velocidade, implicando-nos sensorialmente na brincadeira. A cada vez que um novo corpo é “pego”, recomeça-se o jogo. Difernça e repetição. A cada giro pelo mesmo espaço um novo ciclo e uma nova performance. Alteram-se os corpos, a velocidade impressa, os demais corpos no entorno, os acontecimentos, embora estejamos sempre no interior da cena-jogo agenciados pelo mesmo ponto de ver que, sobre o skate, move o mundo.  

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