Em Juazeiro do Norte, Ceará, a estudante Vitória Santos Lima se queixa da configuração escolar e seu cotidiano tedioso, entre as mesmas quatro paredes monótonas. Eis que então ela formula a imagem de um gênio que subitamente aparece para atender ao seu pedido excêntrico, fazer das quatro paredes a cada dia uma nova paisagem: “o professor vai falar sobre órgãos, aí aparece lá a parede dentro do corpo humano. Sobre a caatinga, aí na paisagem aparece tudo sobre a caatinga. Porque você não ia só escutar o professor falando, você ia ver”. O cinema, essa espécie de gênio, atende ao pedido da menina: subitamente, um corte seco dá lugar ao plano de uma caatinga. Mas, Nunca me sonharam, que mais do que se contentar com a representação, tira dela sua potência, não nos deixa ver, tampouco ouvir. Imediatamente após o corte, os violinos golpeam agora uma melodia árida, reiterada pelas mulas e o sol escaldante que produz um flare na objetiva. Tudo colocado de modo a intensificar não a caatinga como um bioma de clima semiárido, com sua característica vegetação de folhas secas e uma enorme diversidade animal, vegetal, humana. É a caatinga já identificada e sobredeterminada pela representação, com signos estereotipados e clichês audiovisuais que a apresentam segundo determinado regime simbólico. A tela-sala-de-aula de Vitória, que no final das contas está reivindicando a presença do mundo atravessando os muros da escola, encontra uma imagem cristalina, transparente e indefectível. Imagem-modelo do cinema.

Valendo-se de estratégias como a descrita acima, Nunca me sonharam perfila um jogo de oposições, entre as frustrações e sucessos individuais, expostas por cada um dos micro comentários estudantis; e a submissão dessas vidas ao enunciado extrafílmico que o orienta. Neste jogo, o filme constrói um caminho argumentativo que vai dessa juventude como tempestade e trovão para uma imagem formulada por um dos professores, que as associa às tâmaras, com a qual o documentário encerra sua narrativa épica. As tâmaras, comenta o professor, são plantadas para serem colhidas somente cem anos mais tarde. Os frutos, portanto, não são vistos pelas mãos que aterram as sementes, são como que deixadas ao porvir, anunciando um novo dia. A retórica do sonho como um projeto do amanhã, sonho como uma expectativa de futuro, permeia todo o filme: “muito sonho, muita ideia e pouca gente escutando para realizar”, comenta o diretor teatral, escritor e cineasta Marcus Faustini em seu depoimento. Para o filme, o que a educação brasileira – mas não apenas ela, também os pais, comunidades e o conjunto da sociedade, de modo geral – tem feito com os estudantes, é nada mais que o apagamento sistemático de todo desejo de sonhar. Na perspectiva de Cristian Dunker, outro dos especialistas consultados, há uma operação sobre os estudantes que produz um “encurtamento dos sonhos”, estreitando seu horizonte de possíveis. Porém, se os sonhos estão sendo interditados, o filme maneja habilmente seu discurso introduzindo um coeficiente de transformação em seu desfecho, anestesiando os sentidos. As sequências finais agregam imagens dos estudantes em marcha, enquanto vocês em off apontam a mudança, já em curso: a hora é agora, nada os impedirá de transformar o país. São as tâmaras, os corpos que perpetrarão um ponto de desvio no estado de coisas, cujas ações talvez não sejam percebidas agora, no tempo presente, mas brotam como um legado deixado para o amanhã. Nessa narrativa, o intenso agora é irremediavelmente abandonado, tendo no filme uma perspectiva quase oracular, que acaba por invalidar a imediatez e concretude daquelas mesmas vidas não sonhadas, hoje.

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